Texto postado originalmente no blog Comunidade Presbiteriana da Graça
Fyodor
Dostoievski capturou o choque e o escândalo do evangelho da graça
quando escreveu: "No último julgamento Cristo nos dirá: 'Vinde, vós
também! Vinde, bêbados! Vinde, vacilantes! Vinde, filhos do opróbrio!' E
dir-nos-á:"Seres vis, vós que sois à imagem da besta e trazem a sua
marca, vinde porém da mesma forma, vós também!' E os sábios e prudentes
dirão: 'Senhor, por que os acolhes?' E ele dirá: 'Se os acolho, homens
sábios, se os acolho, homens prudentes, é porque nenhum deles foi jamais
julgado digno*. E ele estenderá os seus braços, e cairemos a seus pés, e
choraremos e soluçaremos, e então compreenderemos tudo, compreenderemos
o evangelho da graça! Senhor, venha o teu reino!".[1]
Creio
que a Reforma realmente começou no dia em que Martinho Lutero orou
sobre o significado das palavras de Paulo em Romanos 1:17: "visto que a
justiça de Deus se revela no evangelho, de fé em fé, como está escrito: O
justo viverá por fé". Como muitos cristãos dos nossos dias, Lutero se
debatia noite adentro com a questão fundamental: de que forma o
evangelho de Cristo podia ser realmente chamado de "Boa Nova" se Deus é
um juiz justo que retribui aos bons e pune os perversos? Será que Jesus
veio realmente revelar essa terrível mensagem? De que forma a revelação
de Deus em Cristo Jesus podia ser acuradamente chamada de "Nova", já que
o Antigo Testamento defendia o mesmo tema, ou de "Boa", com a ameaça de
punição suspensa como uma nuvem escura sobre o vale da história?
Porém,
como observa Jaroslav Pelikan: "Lutero repentinamente chegou à
percepção de que a "justiça de Deus" da qual Paulo falava nessa passagem
não era a justiça pela qual Deus era justo em si mesmo (que seria uma
forma passiva de justiça), mas a justiça pela qual, por causa de Jesus
Cristo, Deus tornou justos pecadores (isto é, justiça ativa) através do
perdão dos pecados na justificação. Quando descobriu isso, Lutero
afirmou que os próprios portões do Paraíso haviam-se aberto para ele.[2]
Que verdade atordoante!
"Justificação
pela graça mediante a fé" é a frase erudita dos teólogos para o que
Chesterton chamou certa vez de "amor selvagem de Deus". Ele não é
instável nem caprichoso; não conhece épocas de mudança. Deus tem um
único posicionamento inflexível com relação a nós: ele nos ama. Ele é o
único Deus jamais conhecido pelo homem que ama os pecadores. Falsos
deuses — criados pelos homens — desprezam os pecadores, mas o Pai de
Jesus ama a todos, não importa o que façam. Isso é naturalmente incrível
demais para aceitar. No entanto, a afirmação central da Reforma
permanece: não por qualquer mérito nosso, mas pela sua bondade, tivemos
nosso relacionamento restaurado com Deus através da vida, da morte e da
ressurreição do seu amado Filho. Essa é a boa nova, o evangelho da
graça.
Brennan Manning no Livro "O Evangelho Maltrapilho"
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[1] Fyodor Dostoievski. Crime andpunishment[Crime e castigo]. Nova York: Randon House, 1950, p. 322. [Publicado em língua portuguesa por várias editoras.]
[2] Jaroslav PELIKAN. Jesus through the centuries, his place inhistory of culture. Nova Haven: Yale UniversityPress, 1985, p. 158. Esta é uma obra de
vastae cuidadosamente ocultada erudição que investiga a figura de Jesus
dos temposdo Novo Testamento até o século XX. Pelikansugere que o
retrato de Jesus em determinada época constitui uma chaveessencial para
compreender aquele período. Os últimos capítulos do livromostram que "à
medida que o respeito pela igreja organizada declinou, areverência por
Jesus cresceu".
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