quinta-feira, 26 de janeiro de 2012

Nota de repúdio: caso Pinheirinho


Manifestante do Pinheirinho - Fonte: Portal Terra
Temos acompanhado com grande tristeza uma realidade caótica que se repete de tempos em tempos no Brasil e acaba de se instalar na região de São José dos Campos, São Paulo: a reintegração de posse do assentamento Pinheirinho.

Ocupada há quase oito anos e com seis mil famílias instaladas no local, a área em questão foi alvo (como em tantos outros casos) da sanguinária especulação imobiliária. Propriedade do empresário Naji Nahas, pivô de escândalos financeiros e policiais, a área constitui-se uma massa falida da empresa Selecta que deve mais de 10 milhões de reais de IPTU para a prefeitura de São José dos Campos.

As grandes emissoras pelo jeito não estão muito interessadas na notícia. Pelo que pude observar uma enfermeira chutando um cachorrinho causa mais comoção nos telespectadores do que a ação truculenta dos policiais na área que, aliás, insistem em dizer que não houve feridos, e que as balas são de borracha.

É desesperador assistir ao vídeo “O Massacre do Pinheirinho: a verdade não mora ao lado”, onde são mostrados relatos de ex-moradores da área, bem como a situação degradante nos abrigos, com crianças dormindo no chão, esposa com marido baleado no hospital, idosos sendo carregados por vizinhos.

Nem mesmo a dignidade de ter seus pertences recuperados está sendo respeitada. Uma vergonha para o nosso país! Famílias com vidas consolidadas na área serem tratadas como lixo, sem um mínimo de respeito.

Pior é ter que ler os comentários babacas que surgem na internet, do tipo “são um bando de vagabundos, de desocupados”. Isso só mostra a alienação de grande parte da população, que não conhece as negociações por debaixo dos panos, ou que não quer enxergar a realidade. Cada um preocupado apenas com o seu umbigo e com o seus direitos.

Cheguei a ler um comentário na internet que dizia o seguinte: “todo mundo paga sua casa em 30 anos e esse pessoal quer ganhar de graça do governo? Não pago meus impostos pra dar casa pra eles”. Francamente! Que espécie de mundo vive um sujeito desses?

E imaginar que há quem pense que as pessoas ocupam áreas públicas e/ou áreas de risco porque gostam, porque acham bonito. Vivemos num país de extrema desigualdade social, onde os pobres que não têm nada e ficam cada vez com menos, onde a única opção de ter uma moradia muitas vezes é ocupar áreas abandonadas, como é o caso do Pinheirinho, e ainda ter que viver sob a pressão de perder sua moradia a qualquer momento.

Não quero aqui endossar ocupações irregulares nem torná-las oficiais (até porque não tenho essa autoridade), quero simplesmente defender que o ocorrido é totalmente justificável num país que joga os seus pobres cada vez mais para as periferias, longe de qualquer infra-estrutura urbana, longe dos centros comercias e fontes de emprego, e entregam a cidade a uma especulação imobiliária desenfreada, onde o espaço é sempre privilégio de poucos.

Algo precisa ser feito. São nossos irmãos que estão sofrendo, é a dignidade humana que está em jogo. Precisamos, afinal, reagir!

1 comentários:

andrea disse...

É Jacque, difícil... diante de tantos avanços na política urbana brasileira, deparar com ações tão dramáticas e arcaicas como essa é revoltante...