Tenho um grave defeito: acredito nas pessoas.
Sim, acredito até demais. Mas não esse “crer” humanista, que
acredita no ser humano como medida de todas as coisas, com o centro do universo.
Acredito de um jeito bobo, quase inocente.
Acredito no vendedor de uvas do ponto de ônibus que me diz que
as tais estão doces. Bom, se não estivessem ele não me diria mesmo. Então
compro a fruta crendo que é a melhor do mundo (mesmo que no final das contas
não seja tão boa assim).
Acredito nas cabeleireiras quando vou dar uma mudada no
visual e peço uma sugestão. Quando descrevo o corte que eu tinha imaginado e
elas dizem que vai ficar ótimo, eu acredito. E o engraçado é que mesmo que
fique uma porcaria, mesmo que eu saia do salão parecendo um shin tzu, eu ainda assim
acredito que estou bonita, porque afinal de contas a moça do salão disse que
assim eu ficaria.
Quando vou comprar um móvel ou eletrodoméstico pergunto para
o vendedor sobre a qualidade do produto. E ele por acaso se atreveria a me
dizer que o produto não é bom? Então eu acabo acreditando mesmo...
Em lanchonetes e restaurantes acredito sempre na sugestão
dos garçons, e quando a comida vem, mesmo que não seja tão boa, tendo a
acreditar que o problema deve estar no meu paladar, pois afinal de contas, o
garçon falou que o prato era uma delícia!
Acredito tanto que quando me dizem que alguém não presta ou
não é boa pessoa, dificilmente me esforço para conhecer tal elemento, pois já
acreditei no que me disseram anteriormente sobre os defeitos do sujeito. E isso
obviamente é um problema.
Quando estou aflita, confusa, sem saber o que fazer, pergunto
pra alguém de minha confiança: Vai dar certo, né? Se a pessoa me diz que “sim”,
fim do drama pra mim (mesmo que no frigir dos ovos a coisa não seja tão simples
assim de se resolver).
Acho que na verdade busco sempre ouvir as respostas que já
tenho em mente. Prefiro acreditar nas uvas saborosas do ponto de ônibus a ter
que me deslocar até o próximo hipermercado e encarar uma fila quilométrica.
O que preciso mesmo é de uma afirmação para aquilo que já
propus na minha cabeça.
Essa mania de buscar afirmação na resposta das pessoas é uma
forma de aliviar nossa responsabilidade sobre os fatos. É mais fácil jogar a
culpa no fulano que disse que tal coisa seria assim ou assado, ou que tal situação
daria certo (mas não deu) do que assumirmos para nós mesmos a conseqüência das
nossas próprias escolhas.
Aos poucos vou aprendendo. Pelo menos na hora de aconselhar
evito dar soluções prontas, resolver os dramas das pessoas, palpitar demais (e
esse ensinamento eu devo ao Humberto!). Se alguém me pergunta o que deve fazer,
retruco: o que você acha que deveria
fazer?
Acho que assim ajudamos o outro a pensar mais e tiramos de
nossos lombos a responsabilidade de uma decisão inglória.
Pena eu não conseguir aplicar o conceito pra mim mesma de
forma tão eficaz. Mas é como dizem por aí: façam o que eu digo, não façam o que
eu faço!

1 comentários:
Como diriam os mais caipiras, " eu credito disconfianu".
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