sábado, 4 de dezembro de 2010

Solitude


Em seu livro O Impostor que vive em mim, Brennan Manning discursa sobre o “eu” falso que habita em cada um de nós. Fala das máscaras que usamos para nos escondermos dos outros e de nós mesmos, fala do impostor que geramos desde a mais tenra idade a fim de tornar a vida mais palatável.

Entre as façanhas do impostor, o mestre dos disfarces, está a inabilidade em ficar sozinho, pois é na solitude que ele é desmascarado, é ela que abre espaço para o eu verdadeiro, e solitude é uma palavra que infelizmente não existe no dicionário do mundo pós-moderno.

Ficar sozinho torna-se algo perturbador quando não suportamos a única companhia que nos é permitida: nós mesmos. Esse olhar para dentro nos angustia, nos dá náuseas, nos enlouquece, pois é nesse processo que começamos a enxergar quem verdadeiramente somos.

O mundo agitado tira a nossa tranqüilidade, nos absorve com o seu tumulto a ponto de não escutarmos a voz que clama do nosso interior. São tantos os gritos que ecoam do fundo da nossa alma que o silêncio às vezes tona-se algo barulhento, e não suportamos a ideia de ficarmos sós.

É como a história que Brennan cita em seu livro: um executivo arruinado procurou um sacerdote que vivia no deserto para se queixar de sua frustração com a tentativa de levar uma vida cristã. O sacerdote buscou uma bacia e um jarro d’água e pediu para que o executivo observasse a água sendo jogada na bacia. A água esparramou no fundo do recipiente, agitando-se. Mas gradualmente começou a se acalmar até que, finalmente, a superfície tornou-se tão lisa que o homem pôde ver seu rosto refletido na água tranqüila. “É isso que acontece quando se vive constantemente em meio aos outros. Você não se vê como realmente é por causa de toda a confusão e perturbação. Deixa de reconhecer a presença divina em sua vida, e a consciência de ser o amado lentamente desaparece.” – disse o ermitão.

Precisamos reaprender algumas disciplinas espirituais, e Jesus ensinou muito bem como estar na solitude. Às vezes nos sentimos culpados por não estarmos realizando alguma tarefa “produtiva”, ou por estarmos simplesmente à toa. O nosso impostor tenta nos convencer de que estamos desperdiçando tempo, mas o fato é que só na solitude silenciosa conseguimos ver a nós mesmos, tal qual um reflexo nítido numa água tranqüila.

A nossa inquietação nos tira da presença de Deus, nos faz espernear como meninos agitados no colo do Pai, e por isso não sentimos Seu amor. A solitude nos motiva a um olhar honesto sobre quem de fato somos, e nos convida a nos conectarmos com o que há de essencial em nós: o amado de Deus.

É como a conclusão a que o sacerdote da história citada chega: quando deixamos de reconhecer a presença divina em nossas vidas por conta da agitação da alma, a consciência de que somos amados vai ser perdendo. E quando perdemos a noção de que somos amados por Deus, perdemos a consciência de nós mesmos.

Convido você a experimentar a solitude silenciosa, e que apenas o discurso verdadeiro de Deus ressoe nos seus ouvidos: Você é o amado!

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