Em seu livro O Impostor que vive em mim,
Brennan Manning discursa sobre o “eu” falso que habita em cada um de nós. Fala das
máscaras que usamos para nos escondermos dos outros e de nós mesmos, fala do impostor
que geramos desde a mais tenra idade a fim de tornar a vida mais palatável.
Entre as façanhas do impostor, o mestre dos disfarces,
está a inabilidade em ficar sozinho, pois é na solitude que ele é desmascarado, é ela que abre espaço para o eu verdadeiro, e solitude é
uma palavra que infelizmente não existe no dicionário do mundo pós-moderno.
Ficar sozinho torna-se algo
perturbador quando não suportamos a única companhia que nos é permitida: nós
mesmos. Esse olhar para dentro nos angustia, nos dá náuseas, nos enlouquece,
pois é nesse processo que começamos a enxergar quem verdadeiramente somos.
O mundo agitado tira a nossa tranqüilidade,
nos absorve com o seu tumulto a ponto de não escutarmos a voz que clama do
nosso interior. São tantos os gritos que ecoam do fundo da nossa alma que o
silêncio às vezes tona-se algo barulhento, e não suportamos a ideia de ficarmos sós.
É como a história que Brennan cita em
seu livro: um executivo arruinado procurou um sacerdote que vivia no deserto para
se queixar de sua frustração com a tentativa de levar uma vida cristã. O sacerdote
buscou uma bacia e um jarro d’água e pediu para que o executivo observasse a
água sendo jogada na bacia. A água esparramou no fundo do recipiente,
agitando-se. Mas gradualmente começou a se acalmar até que, finalmente, a
superfície tornou-se tão lisa que o homem pôde ver seu rosto refletido na água tranqüila.
“É isso que acontece quando se vive
constantemente em meio aos outros. Você não se vê como realmente é por causa de
toda a confusão e perturbação. Deixa de reconhecer a presença divina em sua
vida, e a consciência de ser o amado lentamente desaparece.” – disse o
ermitão.
Precisamos reaprender algumas
disciplinas espirituais, e Jesus ensinou muito bem como estar na solitude. Às vezes
nos sentimos culpados por não estarmos realizando alguma tarefa “produtiva”, ou
por estarmos simplesmente à toa. O nosso impostor tenta nos convencer de que
estamos desperdiçando tempo, mas o fato é que só na solitude silenciosa
conseguimos ver a nós mesmos, tal qual um reflexo nítido numa água tranqüila.
A nossa inquietação nos tira da
presença de Deus, nos faz espernear como meninos agitados no colo do Pai, e por
isso não sentimos Seu amor. A solitude nos motiva a um olhar honesto
sobre quem de fato somos, e nos convida a nos conectarmos com o que há de essencial
em nós: o amado de Deus.
É como a conclusão a que o sacerdote
da história citada chega: quando deixamos de reconhecer a presença divina em
nossas vidas por conta da agitação da alma, a consciência de que somos amados
vai ser perdendo. E quando perdemos a noção de que somos amados por Deus,
perdemos a consciência de nós mesmos.
Convido você a experimentar a solitude
silenciosa, e que apenas o discurso
verdadeiro de Deus ressoe nos seus ouvidos: Você é o amado!

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