...Essa madrugada, foi
bem rápido. Encontrei o Jesus no sinal. Não tinha mais que doze anos, se eu for
contar desde a última vez que o vi.
Um corpo magro, a
pele morena, os olhos claros. Claridade? Eu já não via mais. Eu, no banco do carona,
vejo do outro lado o Cristo implorando por um trocado, juntando as duas mãos em
sinal de reza, rezando pra que eu o visse.
A chuva era fina,
insistente, cortante. Me lembrei do Mano Brown " A chuva rasga a carne; é
a torre de Babel..." Ninguém mais se entende, num gesto desesperado, o
pequenino tentava falar minha língua.
E eu? Eu.
Covarde, estranha, perdida. Por um minuto pensei, recuei. Será que abro o vidro
ou não? Será que ele iria me reconhecer? Nem preciso dizer...
Quando abri o vidro.
Perguntei: O que você tá fazendo aqui? Ele me responde: A tia do PET... Sim. Eu. A tia do Pet. A
tia Jack. E ele? O Cristo. O Cristo negligenciado na pele do Jackson
Brendon....
Nome de artista, olhos
verdes, menino lindo. Onde é que ele foi parar? Onde é que ele foi morar? Por
um instante, eu viajei e fui me lembrar. Não deu tempo de muita
conversa, depois de recuar, decidi avançar. Dei o que eu tinha pra dar:
algum trocado, conselhos vazios e um abraço, um beijo nas mãos...
Pra onde ele foi depois
que o carro avançou, não sei. Por onde seus pés descalços vão caminhar até a
manhã do dia de hoje, eu também não sei. Não sei onde seu corpo mirrado vai
repousar, não sei se vai comer, se vai fumar, se vai se esconder, se vai
roubar.
Não sei mais nada do
Jackson, não sei mais nada desse pequenino.
Mas eu me lembro de
algumas coisas...
Me lembro da sua mãe
contar do seu pai, nas palavras dela, vagabundo, bandido, morreu na frente de
seus filhos. Lembro da sua mãe contar
que de todos, Jackson era o que mais se parecia com o pai. Rebelde, difícil,
desobediente. Me lembro das inúmeras
conversas e da sentença final daquela mulher: "Preciso da ajuda de vocês,
não sei mais o que fazer..."
Me lembro das brigas que
compramos na escola. Da diretora encurtar a conversa com uma consideração
torpe: "Ah! Tá explicado. Vai ser bandido que nem o pai." E me
lembro de rebater dizendo: "Não, a gente tá aqui pra que isso não
aconteça."
E agora? Quem sou
eu? Onde é que nos perdemos? Onde eu estava quando a escola se
tornou um problema que ele resolveu deixar pra depois? Onde nos
perdemos quando ele decidiu que estar na rua era melhor que estar em casa?
Onde foi que nos perdemos quando ele perdeu aquela risada sapeca de criança
arteira? Aquele olhar de lince, de menino do mato...
Divertido, sorridente,
que pulava as mesas da sala pra fugir de mim, que me enlouquecia, que me
trancava no banheiro pra me deixar brava, mas que no final das contas me dava
os abraços mais deliciosos e que me cobria com a sua jaqueta jeans do Mickey
Mouse quando eu sentia frio?
Eu não sei onde eu
estava. Não sei onde nos perdemos, mas sei que agora nos trombamos na madrugada
indiferente do sinal fechado. Sei onde ele está agora e por um minuto me acovardei
diante de um estranho.
Só o vidro nos separa?
Talvez. Ou talvez o fato de que eu a essa hora estou voltando pra minha casa,
pro meu ninho, pra minha família e pro meu conforto de cama quente, internet,
livros caros... Com ele eu deixei cinco reais e meu abraço, meu desespero e meu
mais profundo desejo de que ele encontrasse a paz. Por mais impossível que isso
me pareça.
Ele olhou pra mim, com
aquele olhar que um dia eu reconheci. O olhar de quem já foi menino, mas agora
diante de tanta brutalidade, talvez não consiga mais ser. Olhar de quem já foi
criança, de quem já foi gente. Agora não é mais. Agora ele é só uma alma penada
do Brejo da Cruz, como diria o Chico. Era criança, mas agora é uma alma, quase
desencarnada. Invisível. Suplicante.
Pensei também que agora
ele é fraco, sem estudos, menino pivete, marginal, trombadinha, moleque de rua,
mas que talvez um dia ele se canse de ser tudo isso ao olho dessa gente toda.
E aí talvez ele passe a
ser visível quando tiver uma arma, quando render uma madame, quando passar um
playboy e for parar finalmente num lar. O lar dos "sujeitos
asujeitados", em conflito com a lei porca, cúmplice da injustiça,
silenciosa e indiferente com todas as diferenças cruéis que fizeram aquele
pequenino se tornar perigoso pro resto da sociedade... Socialmente desajustada,
fragmentada, esquizofrênica e carnívora.
Essa mesma que se
alimenta da desesperança dessas mães que largam os seus frutos pelo caminho, do
incômodo que a insegurança e que a violência causam em suas vidinhas quase
perfeitas. Comprando mais equipamentos de segurança, blindando seus carros e
pagando seus impostos como alívio de consciência no caso de uma conversa de
mesa de bar. Onde certamente argumentarão que um preso ou um adolescente no
CAJE custam mais caro do que a babá de seus filhos ou a terapia deles mesmos.
Para o Jackson não tem
re-socialização, nem família reintegrada, nem terapia, nem cama quente, nem
olhos que o vejam. Para o Jackson tem vidros fechados, correria, noite fria,
sinais e surpresas. Noite e dia.
E onde estamos nós? Povo
que caminha em busca de humanidade, de verdade, misericórdia, justiça e
liberdade? Quantos Cristos ainda teremos que trombar no caminho pra perceber
que estamos aqui pelo Rei e pelo Reino e pelo avanço do amor que transforma,
humaniza e nos faz ver quem de fato somos à medida que vemos quem o outro
é e à medida que ele está em nós e nós nele.
Hoje eu descobri que
preciso voltar, caminhar e descobrir onde perdi a compaixão, a coragem e a
humanidade que se perderam quando aquele pequenino se perdeu...
Enfim, encontrei Jesus
no sinal. O nome dele era Jackson e foi assim...
Jackeline
Sousa é estudante de pedagogia da UnB, trabalha em uma ong, a Viver, na
Estrutural - Brasília/DF. É uma das pessoas mais sensíveis que já conheci, com
um olhar mais que humano para o sofrimento do próximo. Além de tudo, é minha
amiga de alma.

1 comentários:
Ai, que texto cortante.
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