No entanto, o livro é relevante não apenas para arquitetos e artistas, mas também para aqueles que percebem significado em cenas simples da vida como um raio de sol refletido no chão frio e cinzento de uma sala vazia.
O texto abaixo transcrito está inserido numa conversa que Botton inicia a partir das impressões que o belo causa no homem. Trata-se da constatação de como nossa vida é incompleta diante do perfeito, do ideal, e essa coisa ideal fala daquilo que gostaríamos de ser, e não somos. Como o autor mesmo enfatiza, "o objeto perfeito coloca em perspectiva a mediocridade que nos cerca".
Quero compartilhar aqui no blog alguns trechos do livro, por isso intitulei o texto como "Parte 1", pois pretendo dar continuidade a essa conversa despretensiosa e um tanto filosófica. Boa leitura!
Os filósofos cristãos têm estado singularmente atentos à tristeza que o belo pode provocar. "Quando admiramos a beleza de objetos visíveis, ficamos sem dúvida felizes", observou o pensador medieval Hugo de São Vitor, "mas ao mesmo tempo sentimos um enorme vazio".
A explicação religiosa para esta tristeza, tão implausível do ponto de vista racional quanto psicologicamente intrigante, é que reconhecemos o que é belo como símbolo da vida imaculada que gozávamos no Jardim do Éden. Embora possamos um dia reaver esta sublime existência no Céu, os pecados de Adão e Eva nos privaram dessa possibilidade na Terra.
O belo, portanto, é um fragmento do divino, e a sua visão nos entristece ao evocar a nossa sensação de perda e o nosso anseio pela vida que nos é negada. As qualidades inscritas nos objetos belos são as qualidades de um Deus de quem vivemos muito afastados, num mundo atolado no pecado.
Embora as obras de arte sejam finitas, o cuidado tomado por quem as cria é grande o bastante para que possam reivindicar a perfeição numa medida em geral inatingível pelos seres humanos.
Estas obras são provas agridoces de uma bondade a que ainda aspiramos, embora raramente nos aproximemos dela em atos e pensamentos.
Alain de Botton, em A Arquitetura da Felicidade, Ed. Rocco.

1 comentários:
Jaque, que texto lindo.
O belo como fragmento do divino é excepcional, me intriga, no entanto, com que categorias pensamos e vemos o belo.
Abraços
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