Parece que para o Manoel Carlos, sim. O Rio continua lindo. A bela família burguesa continua brindando com champagne os reencontros, o noivado da filha cadeirante, o encontro com as amigas no bar, as festas ao redor da piscina, as aventuras adúlteras da mulher que só quer uma nova experiência...
E o Zé Mayer continua pegando todas as mocinhas da novela, inclusive conquistando os pais das donzelas pobres com um gostoso passeio de lancha. Vida de rico por 15 minutos... quem não quer?
Tá bom... confesso vai... Fiquei dois dias de licença médica e me chafurdei na lama global. Tirei o atraso. Assisti mesmo (falando mal o tempo todo, claro). Gastei meu precioso tempo assistindo aquilo que todo mundo já sabe como vai acabar. Afinal de contas, se os personagens e seus nomes sãos os mesmos, imagine a trama e o final dela...
Semana passada ficamos atordoados com o dilúvio na cidade maravilhosa. O morro do Bumba desabando, pessoas morrendo soterrados pelo lixo, pelos barracos, pela barganha política, pela nossa omissão.
Histórias de pais que não puderam salvar seus filhos, de famílias que foram totalmente desfeitas. Amigos sob os escombros. Multidão de sem-tetos da noite para o dia.
Brasil sem esperança... Onde está o Cristo de braços abertos? Demagogia nossa colocar a culpa nos desastres naturais, muito mais no Criador. “Porque sabemos que toda a criação, a um só tempo, geme e suporta angústias até agora” (Rm 8.22).
Insistimos em viver como se nada estivesse acontecendo. Do alto de nossos apartamentos luxuosos, de nossas casas bem providas, assistimos cinicamente a retratação de um Rio de Janeiro que só existe nos contos de fadas. A cidade maravilhosa eternizada por Tom Jobim, que recebe a garota de Ipanema, já não pode mais ludibriar o mundo.
A nojeira está exposta. O buraco aberto no morro escarnece nossa estúpida vivência. Não podemos mais Rio, não desse jeito. Chega de coisa linda e cheia de graça. A coisa mais linda que eu já vi passar é gente morando com dignidade em terra firme, e não sobre uma bomba-relógio, é saneamento básico para o cidadão trabalhador, é viver livre do poder do tráfico das drogas.
Não sou compositora, apenas uma arquiteta que se atreve a escrever. Ainda assim, proponho um poema para um bom samba carioca, pra que seja eternizado nas rodas de finais de semana:
219 mortos
161 feridos
11.562 desabrigados
10,3 milhões de moradores atingidos
22 municípios afetados
E o Rio continua lindo...
2 comentários:
Excelente texto, meu bem!
Ácido e desconfortante, e acima de tudo verdadeiro!
Beijos!
Paz,
Parabéns, pelo seu trabalho neste blog. Que Deus em Cristo Jesus continue lhe abençoando poderosamente.
Estou seguindo o vosso blog.
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Um abraço, Alexandre Pitante.
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