* O texto que se segue foi publicado originalmente no Visão Integral, há 2 anos atrás. Transcrevo-o aqui com as devidas revisões que o tempo nos exige.
Confesso que sempre me senti meio Esaú. O primogênito cabeludo da narrativa bíblica sempre estimulou em mim um sentimento de autopiedade e grande identificação. Não pelos pêlos, obviamente, nem pela cor (sou mais rosada do que vermelha), mas talvez pelo simples fato de ser eu a primogênita da família.
Uma análise superficial da história, iniciada no útero de Rebeca, terra fértil para a origem de duas nações briguentas, faz-me querer ser parecida com Esaú, o pobre irmão passado para trás, driblado pela fome e pela esperteza do irmão mais novo. A semelhança a que me refiro não está na relação complicada entre os irmãos, mas na posição de desvantagem que Esaú assume: o ingênuo da história.
Porém, como conseqüência de meu ânimo dobre, percebo que Jacó também vive em mim. A começar pelo nome.
Ora, se eu tivesse nascido na Antiguidade, quando os nomes eram carregados de significado e expressavam as circunstâncias de nascimento do bebê, provavelmente minha mãe teria colocado o nome de “Aquela que era pra ser um menino”, já que este era o seu desejo incontido.
Não me lembro ao certo o título do livro que folheei há alguns anos, mas me lembro da surpresa que tomou conta de mim ao ler em suas páginas o significado do meu nome.
“Jacqueline = feminino de Jacó (aquele que segue os passos de Deus)”. Por muito tempo me apeguei à idéia de que “seguir os passos de Deus” seria uma vida de obediência e santidade, ou seja, aquele que anda nos caminhos do Senhor.
Mas olhando pra trajetória de Jacó, começo a perceber que talvez este ‘seguir’ esteja mais próximo de ‘perseguir’. Afinal, o insistente personagem bíblico procurava ser abençoado a qualquer custo.
No entanto, se não estiver errada, a Bíblia traz outro significado.
No relato bíblico, o significado do nome de Jacó traz em si um peso que ele carrega por quase toda a sua vida: “enganador”, ou, “aquele que engana”.
Dessa vez não foi surpresa, foi espanto. Percebi que os gêmeos estavam dentro de mim, convivendo ao mesmo tempo, brigando, como no útero materno. Metade Esaú - faminto, só querendo um prato de cozido - e a outra metade Jacó - enganador, vigarista, manipulador.
O agarrador de calcanhares é um personagem interessante. Seu caráter marcado pela astúcia e esperteza, amor e insistência, me faz pensar que talvez não seja tão ruim assim ser parecida com ele.
A humanidade de Jacó está cercada da graça de Deus. Ele faz o oposto que T. S. Eliot comentou: “O pior pecado é fazer a coisa certa com a motivação errada”.
Jacó tinha uma só coisa em mente: alcançar a bênção de Deus. E ele não mediu esforços para isso. Agarrou o calcanhar de Esaú, preparou um prato de comida, fugiu, se casou, trabalhou, teve visões, se reconciliou, lutou com Deus, se feriu e ganhou um novo nome – Israel.
Ele era impossível. Não media esforços. Fez coisas erradas com a motivação certa. Experimentou bem de perto as conseqüências de sua humanidade: sentiu raiva por ter sido enganado pelo sogro, trabalhou a duras penas por 14 anos pela mulher amada, teve medo de seu irmão, lutou com Deus e finalmente obteve sua bênção.
Jacó é desconcertante e seu caráter me surpreende por dois motivos: primeiro pela identificação imediata que me ocorre quando olho pro impostor que vive em mim, segundo porque percebo o amor gracioso de Deus tomando conta da minha humanidade caída.
De repente começo a me sentir bem com a idéia de ter algo em comum com Jacó, mesmo que seja a mera semelhança de um nome com significado tão vil. Ser parecida com Esaú começa a parecer autocomiseração, autopiedade, a esquecida de Deus, com a primogenitura vendida.
Manipulador, vil, enganador, fraco, medroso, arrependido, insistente, sedento da bênção de Deus! Sou o Jacó de saias.
Mais tarde ele se tornou Israel, aquele que lutou com Deus. E eu continuo lutando, a despeito do desânimo, das dúvidas, do medo e da insegurança.
Quero a benção diária da graça de Deus agindo em mim e através de mim, mesmo que isso me custe lutas freqüentes.
Jacqueline Emerich
Cuiabá, madrugada de 21 de setembro de 2007.




